Processos de formação de intérpretes em consigna livre: práxis e metodologias experimentadas pela Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), Núcleo de Artes Cênicas (NAC) e SP Escola de Teatro.

Simone Carleto

Resumo


RESUMO: Apresento na pesquisa reflexão a respeito da formação de atores e atrizes em consigna livre, imbricando antecedentes histórico-conceituais à observação das práxis estético-político-pedagógicos de três instituições que oferecem cursos de atuação: Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), Núcleo de Artes Cênicas (NAC) e SP Escola de Teatro. Com base em pressupostos característicos da forma de produção coletivo-colaborativa do teatro de grupo e da atoralidade, no concernente à atitude criativa composicional da obra (configurando-se em experimento estético histórico-social), defendo a tese segundo a qual as metodologias experienciadas no processo formativo concernem ao modo como se considera a função social do teatro. Assim, ao estabelecer um campo de disputa simbólica, a arte contra-hegemônica intenta uma busca de alternativas e resistência, que cria novas formas de organização e relações sociais. Nesse sentido, evidenciam- -se, na reflexão, as influências do teatro livre, político, agitpropista e do teatro épico para a criação dos estúdios e do sujeito histórico teatro de grupo, coligindo produção artística e formação cultural. Parte da produção teatral europeia, desde o final do século XIX e início do século XX instigou a reação de opositores, que instaurou o processo de retomada do movimento hegemônico realista. No Brasil, a ascendência do livre verificou-se na produção teatral do chamado teatro da militância, principalmente, no Teatro de Arena, Teatro Paulista do Estudante e Teatro do Oprimido, entre outros. Já o esteticismo francês, impulsionou, entre outros, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), do qual decorre o grupo Macunaíma e Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), coordenados por Antunes Filho. Do CPT provém parte significativa da experiência artística do NAC. Do teatro e estúdios criados na transição da Rússia para a URSS por Meierhold, em contraponto ao sistema Stanislávski, veio o projeto modelar configurado por Maria Thais da ELT. Maria Thais inspira outras iniciativas, nas quais insere-se a SP Escola de Teatro, porém com projeto e metodologia diametralmente opostas. Referente à estruturação, as diferenças percebidas relacionam-se às formas de organização: as instituições oferecem cursos gratuitos, divididos em módulos, com base em consigna livre; NAC constitui-se de modo análogo às organizações pré-capitalistas; SP Escola de Teatro postula inserção técnica no mercado teatral; ELT ocupa o Teatro Municipal Conchita de Moraes, em condições precaríssimas, em Santo André. Mesmo com as idiossincrasias presentes nas instituições, a produção e formação artísticas abarcadas pelo livre podem ser alternativas para se pensar modelos pedagógicos criativos, que propiciem descortinar outros cenários e um outro mundo possível, no qual seja garantida a igualdade de acesso às condições materiais de produção e de apropriação simbólica.



Palavras-chave


formação de atores e atrizes, escolas livres, criação coletivo-colaborativa, pedagogia das artes cênicas.

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Referências


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ISSN 2176-9516

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